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Segundo a psicologia, este reflexo que muitos consideram normal é, na verdade, um mecanismo de defesa.

Homem com a mão no peito e um copo de água na outra mão, sentado à mesa com um portátil e documentos.

Estás sentado ao jantar, garfo a meio caminho da boca, quando alguém te provoca: “Oh vá lá, não sejas tão sensível.”
Tu ris. Dizes: “Não, não, estou bem, não é nada”, mesmo com a garganta apertada e o peito a vibrar como uma coluna estragada.

Dez minutos depois, sob a luz quente do espelho da casa de banho, o teu rosto parece calmo, quase vazio. Por dentro, estás a rever a cena fotograma a fotograma. O que disseste. O que eles disseram. O que gostavas de ter respondido.

À superfície, parece apenas que “não querias drama”.
Os psicólogos têm outra palavra para isso.
E, quando a vês, já não consegues deixar de a ver.

O reflexo que parece calma… e afinal é auto-defesa

Há um instante minúsculo, quase invisível, que muitos de nós conhecem bem demais.
Alguém ultrapassa um limite, diz algo um pouco duro, esquece-se das tuas fronteiras. Sentes um sobressalto por dentro… e imediatamente sorris, encolhes os ombros e dizes: “Sem stress.”

De fora, parece maturidade emocional. Pareces tranquilo, composto, “acima disso”.
Por dentro, o corpo já está a contrair, o coração a acelerar, o maxilar tenso.

Essa desconexão entre o alarme do corpo e a calma educada no rosto?
A psicologia chama a este tipo de reflexo um mecanismo de defesa.

Imagina isto: um funcionário de 30 anos, chamemos-lhe Liam, numa reunião de equipa.
O chefe critica publicamente o trabalho dele: “Isto está desleixado, devias ter feito melhor.” A sala fica em silêncio.

O Liam sente as faces a arder. Quer responder, explicar. Em vez disso, solta uma risadinha.
“Pois, acho que fiz asneira”, diz de forma leve. Toda a gente relaxa. A tensão desfaz-se.

Mais tarde nessa noite, o Liam fica acordado, a repetir cada palavra. A mente continua a reescrever a cena. Faz scroll no telemóvel sem realmente ler.
No papel, ele “lidou bem”. Por dentro, engoliu o golpe. É o tipo de momento que parece normal e social, mas, na verdade, é armadura emocional.

Os psicólogos descrevem estes reflexos como estratégias automáticas que a mente usa para nos proteger do desconforto, da vergonha ou do medo.
Não são escolhas conscientes. Estão mais perto de um airbag psicológico: disparam antes de sequer perceberes o que se está a passar.

Neste caso, o reflexo é supressão emocional disfarçada de descontração. O cérebro, ao sentir uma ameaça à autoestima ou ao sentimento de pertença, tenta manter a paz a qualquer custo.
Então tu alisas as arestas, ris-te, fazes de conta que não foi nada, representas o “descontraído”.

“Ganhas” pontos sociais, evitas conflito, manténs-te incluído.
O preço é que a emoção real vai para debaixo da superfície e começa a fermentar.

De “estou bem” a consciência honesta: como apanhar o reflexo

O primeiro movimento útil não é “lutar” contra este reflexo, mas apanhá-lo em flagrante.
Da próxima vez que disseres “estou bem” depressa demais, faz uma pausa por dentro.

Logo após a conversa, quando estiveres sozinho durante trinta segundos, dirige a atenção ao corpo.
Onde é que sentes algo: garganta, peito, estômago, ombros?

Dá-lhe um nome numa frase curta, nas tuas palavras: “Sinto-me pequeno”, “Sinto-me picado”, “Sinto-me desvalorizado.”
Não tens de o dizer a ninguém em voz alta. Estás apenas a deixar o cérebro saber que a emoção existe.

Um truque útil é rever o momento como um filme de baixo orçamento, mas só durante um minuto.
Pergunta-te: “Se eu não estivesse a tentar ser razoável, o que é que eu sentiria honestamente?”

Talvez admitisses: “Senti-me humilhado”, ou “Senti-me usado”, ou simplesmente: “Isto magoou.”
Repara como a mente salta logo com desculpas: “Não foi por mal”, “Estou a exagerar”, “Não é assim tão grave.”

Estas desculpas fazem parte do mesmo sistema de defesa. Estão a tentar empurrar a emoção de volta para debaixo de água.
Não estás a tentar afogar o teu reflexo com lógica. Estás apenas a permitir que as duas verdades existam: a versão social… e a privada.

Este é o trabalho silencioso pelo qual ninguém te dá os parabéns, mas que muda tudo com o tempo.

Podes até fazer uma pequena experiência: da próxima vez que alguém disser algo que te atinge, não respondas de imediato.
Respira uma vez. Dois segundos apenas.

Depois, em vez do clássico “sem stress”, experimenta algo como: “Eu sei que estás a brincar, mas isto picou um bocado”, ou “Preciso de um momento para pensar nisso.”
Ao início, parece estranho, como falar uma língua que mal conheces.

Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias, sempre.
Ainda assim, cada vez que o fazes, dizes ao teu sistema nervoso: “Eu também tenho direito a existir aqui.”

Viver com as tuas defesas sem as deixar conduzir o carro

Há algo profundamente humano nestas defesas.
Nasceram por boas razões, muitas vezes há muito tempo, quando o conflito parecia perigoso ou quando aprendeste que ficar calado te mantinha seguro.

Em vez de tentares “apagá-las”, podes colocá-las no lugar certo.
Um método concreto é escrever num diário logo após um momento carregado, mas em três colunas:

  • O que aconteceu.
  • O que eu mostrei.
  • O que eu realmente senti.

Essa separação no papel ajuda o cérebro a compreender a separação dentro de ti.

Muitas pessoas culpam-se: “Porque é que não disse nada? Porque é que sou sempre assim?”
Atacar-te só acrescenta uma segunda camada de dor por cima da primeira.

Uma atitude mais gentil soa mais a: “Ok, este é o meu reflexo antigo. Protegeu-me antes. Está a aparecer outra vez.”
Esse tom muda-te da vergonha para a curiosidade.

Armadilhas comuns aqui são obrigar-te a explodir (“Tenho de dizer tudo o que sinto!”) ou ficar eternamente simpático.
O que procuras é um meio-termo, onde a tua emoção não desaparece, mas também não incendeias a sala.

O psicólogo Donald Winnicott escreveu uma vez que alguns de nós aprendem cedo a apresentar um “falso self” para sobreviver - uma versão mais polida, mais aceitável de quem somos.
Com o tempo, esse falso self pode tornar-se tão treinado que nos esquecemos de que há algo por baixo dele.

  • Repara no guião
    No momento em que te ouves dizer “Está tudo bem, não te preocupes”, pergunta em silêncio: “Isto é verdade, ou é a minha máscara automática a falar?”
  • Experimenta pequenas doses de honestidade
    Não precisas de um grande discurso. Uma frase como “Sinto-me um pouco desconfortável com isso” já é uma revolução.
  • Cria espaços seguros
    Fala com uma pessoa que seja emocionalmente segura e pratica dizer o que não disseste no momento. O teu sistema nervoso aprende que autenticidade nem sempre acaba em desastre.
  • Aceita que é confuso
    Às vezes vais reagir demais, outras de menos. Isso não é falhar - é recalibração.
  • Procura ajuda se isto for profundo
    Se o teu reflexo for constante e exaustivo, um terapeuta pode ajudar a perceber onde começou e como afrouxar o seu controlo.

Quando “estou bem” deixa de ser a resposta para tudo

Quando percebes que a tua calma, as tuas piadas, o teu sorriso a pedido podem ser um escudo, o quotidiano começa a parecer diferente.
Reparas no amigo que diz sempre “sem stress” com um olhar cansado. No colega que se ri quando é interrompido pela terceira vez. No parceiro que diz “faz como quiseres” mas fica em silêncio o resto da noite.

De repente, o que parecia neutralidade soa mais a abandono silencioso de si próprio.
E talvez te reconheças em todos eles.

Não tens de deitar tudo abaixo de uma vez.
Pode começar com um único momento em que não atropelas o que sentes, em que não te manipulas para a dormência.

Todos já lá estivemos: aquele momento em que sais de uma conversa e só depois percebes o que realmente sentiste.
Esse atraso não prova que estás “estragado”. Prova que a tua mente aprendeu a adiar a tua verdade para poderes continuar aceite, amado, ou pelo menos seguro.

A pergunta não é “Porque é que eu sou assim?”, mas “Ainda preciso desta armadura o tempo todo?”
Nalguns dias, a resposta será sim. Há hábitos antigos que se agarram com força.

Noutros dias, podes encontrar a coragem de dizer, com calma e clareza: “Na verdade, isto não me soube bem.”
Nem sempre vai cair bem. As pessoas não estão habituadas a estes pequenos actos de honestidade.

Ainda assim, cada vez que o fazes, esse reflexo antigo afrouxa um pouco.
Deixas de viver apenas como a versão polida e fácil de ti - e aproximas-te da pessoa que realmente és, por baixo da defesa.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Reconhecer a defesa “Estou bem” e fazer piadas para afastar a dor pode ser supressão emocional, não calma real Ajuda os leitores a identificar os seus reflexos escondidos no dia a dia
Ferramentas simples de consciência Verificação do corpo, nomear numa frase, e uma breve repetição da cena Dá formas práticas de reconectar com emoções reais sem drama
Mudança gentil ao longo do tempo Pequenas frases honestas, escrita em diário e conversas seguras Mostra um caminho realista para mais autenticidade e menos auto-anulação

FAQ:

  • Pergunta 1 Como sei se estou genuinamente calmo ou se estou apenas a usar um mecanismo de defesa?
  • Resposta 1 Verifica o corpo e os pensamentos posteriores. Se o corpo estiver tenso e continuares a repetir a cena na cabeça durante horas, é muito provável que a tua “calma” tenha sido um reflexo de proteção, e não paz real.
  • Pergunta 2 Este reflexo é sempre uma coisa má?
  • Resposta 2 Não. Pode proteger-te em situações inseguras ou quando falar teria consequências sérias. O problema é quando se torna automático em todo o lado, até com pessoas que são de facto seguras.
  • Pergunta 3 Posso livrar-me completamente dos meus mecanismos de defesa?
  • Resposta 3 Os psicólogos dizem que as defesas nunca desaparecem por completo; apenas evoluem. O objetivo não é apagá-las, mas ganhar consciência suficiente para escolher quando lhes dar ouvidos e quando agir de forma diferente.
  • Pergunta 4 E se as pessoas ficarem chateadas quando eu deixar de “rir para disfarçar”?
  • Resposta 4 Algumas vão ficar. Estavam habituadas à tua versão que absorvia a tensão por toda a gente. O desconforto delas não significa que estejas errado; significa que a relação está a ajustar-se a um equilíbrio mais honesto.
  • Pergunta 5 Devo falar disto com um terapeuta?
  • Resposta 5 Se te sentes drenado, ressentido ou invisível por causa deste reflexo, falar com um profissional pode ser muito útil. Pode ajudar a perceber onde começou e a construir novas formas de responder que sejam mais seguras e mais autênticas.

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