Estás numa reunião, sentes-te bastante bem com o que acabaste de apresentar, quando alguém pigarreia e diz: “Posso dar-te algum feedback?”
O teu peito aperta. A tua mente começa a correr à frente das palavras da pessoa. Já imaginas o pior.
Ou talvez sejas o oposto. Desligas. Acenas com a cabeça, dizes “sim, isso é útil”, e depois ficas a repassar o comentário na tua cabeça durante três noites seguidas.
As palavras importam, claro. Mas os psicólogos continuam a repetir a mesma verdade discreta: o que realmente revela quem tu és não é a crítica em si, mas a forma como reages quando ela te atinge.
Aquele microsegundo de pausa depois de uma observação?
Conta uma história de que talvez ainda não te tenhas apercebido.
O que a tua primeira reação à crítica revela em silêncio
Algumas pessoas ouvem uma crítica e sentem-se imediatamente atacadas. A voz fica mais cortante, os ombros sobem, começam a defender cada detalhe como se estivessem em julgamento.
Outras, perante praticamente a mesma observação, entram logo em modo de pedido de desculpas, encolhendo-se na cadeira, como se simplesmente existir já fosse “demais”.
Os psicólogos veem frequentemente estes dois padrões clássicos como reflexos da autoestima em ação.
A defensividade costuma esconder um ego frágil; o excesso de pedidos de desculpa muitas vezes mascara a sensação de não ser “suficiente” à partida.
As palavras que te saem da boca são só a superfície. A verdadeira história está a acontecer dentro do teu sistema nervoso.
Vejamos a Anna, 32 anos, que trabalha em marketing. O seu gestor diz-lhe: “Esta campanha está boa, mas a mensagem está um pouco confusa.”
As faces dela começam a arder de imediato. “Confusa como?” responde ela, num tom ríspido. “Fizemos exatamente o que o briefing pedia. O problema é o timing, não o conceito.”
Mais tarde, diz a uma amiga: “Ele basicamente disse que eu sou má no meu trabalho.”
Na realidade, ele não disse nada parecido. Mas a baixa autoestima funciona como um tradutor muito parcial.
Ouve “esta parte pode ser melhorada” e transforma isso em “és um fracasso e toda a gente vê”.
No outro extremo, alguém com uma autoestima mais estável pode sentir-se picado, mas ainda assim pensar: “Ai… ok, mas onde é que exatamente perdeu clareza?”
A Psicologia liga muitas vezes estas reações ao que acreditas sobre o teu próprio valor.
Se, no fundo, sentes que só vales tanto quanto a tua última performance, a crítica torna-se uma ameaça à tua identidade inteira. Por isso lutas, negas ou congelas.
Quando tens uma base interior mais estável, o feedback torna-se dados, não um veredicto. Consegues separar “fiz uma coisa confusa” de “sou uma pessoa confusa”.
Esse intervalo é tudo.
Autoestima não significa adorares tudo o que fazes; significa não colapsares cada comentário num referendo sobre quem tu és.
Quanto mais essas duas coisas se misturam, mais a crítica parece um ataque pessoal em vez de um simples ajuste.
Como responder de forma diferente quando a crítica te atinge com força
Um gesto pequeno e prático muda muita coisa: inserir uma pausa.
Literalmente. Quando alguém te critica, respira uma vez. Depois diz uma frase neutra como: “Ok, podes explicar melhor o que queres dizer?”
Este atraso microscópico impede a tua reação em piloto automático de tomar conta.
Dá ao teu cérebro um segundo para mudar de “estou a ser atacado” para “estou a recolher informação”.
Não tens de concordar. Nem sequer tens de gostar da pessoa.
Estás apenas a comprar tempo entre as palavras dela e o teu ego ferido - e é nesse pequeno espaço que a autoestima pode começar a crescer.
Muita gente faz exatamente o contrário e salta diretamente para o autojulgamento.
“Tu tens razão, eu estrago sempre isto.”
“Sou tão estúpido, devia ter sabido.”
Parece humildade por fora, mas por dentro é uma erosão lenta e dolorosa.
Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias com plena consciência.
Se cresceste com crítica dura, podes até achar que atacar-te preventivamente dói menos do que ouvir dos outros.
O problema é que confirmas, repetidamente, as tuas piores crenças.
A crítica dos outros dói uma vez; a crítica a ti próprio continua a ecoar.
A psicóloga Kristin Neff, conhecida pelo seu trabalho sobre autocompaixão, salienta frequentemente que a forma como falamos connosco após um erro pode aprofundar a ferida ou ajudar a curá-la.
Para mudares a tua reação, podes usar uma lista interna simples quando alguém aponta uma falha:
- Pergunta: “O que exatamente estão a criticar: o meu trabalho, o meu comportamento, ou a minha pessoa inteira?”
- Substitui “Eu sou terrível” por “Isto não funcionou da forma que eu queria”.
- Repara no corpo: estás a contrair, a prender a respiração, a desviar o olhar?
- Permite uma emoção honesta: “Isto dói”, “Sinto-me envergonhado/a” ou “Sinto-me mal interpretado/a”.
- Depois escolhe uma resposta calma, mesmo que o teu cérebro esteja a gritar: “Obrigado/a, vou pensar nisso” ou “Podes dar-me um exemplo concreto?”
No início, são passos pequenos e desajeitados.
Ainda assim, vão ensinando gradualmente o teu sistema de que a crítica é sobrevivível.
Que não tens de desaparecer nem de te atacares a ti próprio para estares seguro/a.
A crítica como espelho - e o que decides ver
Da próxima vez que alguém te criticar, repara no que se acende primeiro: raiva, vergonha, pânico, dormência.
Essas emoções têm menos a ver com a frase da pessoa e mais com histórias antigas que carregas.
O comentário de um colega pode espelhar a voz de um professor de há anos, ou a desilusão de um pai/mãe que nunca digeriste bem.
Visto assim, cada feedback torna-se um pequeno espelho.
Não só do teu trabalho, mas da forma como atribuis valor a ti próprio/a.
Podes continuar a usar esse espelho para confirmar feridas antigas, ou começar a usá-lo para perceber onde ainda não confias no teu próprio valor.
Alta autoestima não significa que gostas de ser criticado/a; significa que não desapareces quando isso acontece.
Baixa autoestima não significa que não possas mudar; apenas significa que o teu sistema nervoso ainda acha que crítica = perigo.
A mudança começa quando te manténs presente durante aqueles poucos segundos desconfortáveis, te perguntas que história estás a ouvir e decides - conscientemente - se queres continuar a acreditar nela ou experimentar outra, desta vez.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| A reação inicial é uma pista | Defensividade, excesso de pedidos de desculpa ou bloqueio refletem muitas vezes crenças escondidas sobre valor próprio | Ajuda-te a decifrar padrões em vez de culpares apenas a tua personalidade |
| Pausa antes de responder | Uma respiração e uma pergunta neutra criam distância face às reações automáticas | Dá-te controlo da conversa e protege a tua autoestima |
| Separar ação de identidade | Mudar de “Eu sou mau” para “Isto poderia estar melhor” | Reduz a vergonha e torna a melhoria possível em vez de esmagadora |
FAQ:
- Pergunta 1 Porque é que eu fico a repassar críticas na minha cabeça durante dias?
- Pergunta 2 Ficar zangado/a com críticas significa sempre baixa autoestima?
- Pergunta 3 Como posso perceber se o feedback é construtivo ou apenas maldoso?
- Pergunta 4 E se a crítica do meu chefe afetar toda a minha confiança?
- Pergunta 5 Alguém com baixa autoestima pode aprender a lidar com críticas com calma?
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