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Hepatologista aponta os seis sinais mais importantes de alerta da doença do fígado gordo que não deve ignorar.

Mulher sentada à mesa, segurando o estômago, olhando para um papel. Tigela com cereais e frutas e seringas ao lado.

Um desconforto vago debaixo das costelas. Muitas pessoas ignoram os sinais iniciais que o fígado lhes está a enviar.

Os médicos alertam que a doença do fígado gordo, antes rara e sobretudo associada ao consumo excessivo de álcool, está agora a espalhar-se rapidamente entre pessoas com estilos de vida comuns. A condição pode evoluir de forma silenciosa durante anos e, quando surgem sintomas, o fígado pode já estar sob forte pressão.

Porque é que o fígado gordo está a tornar-se tão comum

A doença do fígado gordo acontece quando o excesso de gordura se acumula dentro das células hepáticas. Essa gordura vai, gradualmente, perturbar o funcionamento do órgão.

Os hepatologistas destacam que o fígado participa em mais de 500 funções diferentes, desde filtrar toxinas até ajudar a gerir o açúcar no sangue e o colesterol. Quando a gordura “aperta” o fígado, essas funções começam a falhar.

O fígado é muitas vezes chamado um “órgão silencioso” porque, regra geral, não dói, mesmo quando os danos já estão em curso.

Os especialistas apontam para um grupo familiar com maior risco:

  • Pessoas com obesidade ou gordura central à volta da cintura
  • Pessoas com diabetes tipo 2 ou pré-diabetes
  • Pessoas com hipertensão arterial
  • Pessoas com colesterol elevado ou triglicéridos altos
  • Pessoas que consomem álcool regularmente, mesmo em quantidades “sociais”

As análises de sangue de rotina e uma ecografia abdominal revelam muitas vezes o problema antes de os sintomas serem evidentes. Essa janela precoce é o momento em que as mudanças no estilo de vida podem funcionar melhor.

Os 6 principais sintomas do fígado gordo

Quando a doença avança, algumas pessoas começam a sentir sinais de alerta claros. Um hepatologista de referência descreve seis sintomas que merecem atenção.

1. Cansaço constante que não corresponde à sua rotina

Sentir-se esgotado após uma semana longa é uma coisa. Sentir-se exausto mesmo depois de uma boa noite de sono é diferente.

Com fígado gordo, os doentes descrevem frequentemente uma fadiga profunda e persistente. Podem ter dificuldade em cumprir tarefas normais, perder motivação para fazer exercício ou sentir “nevoeiro mental”.

O cansaço persistente, sobretudo quando o sono e os níveis de stress são razoáveis, pode indicar que o fígado não está a gerir devidamente a energia e as toxinas.

2. Dor ligeira ou desconforto no lado direito do abdómen

O fígado situa-se por baixo da caixa torácica direita. À medida que aumenta de volume ou inflama devido à acumulação de gordura, algumas pessoas notam uma dor surda ou uma sensação de “enchimento” nessa zona.

Este desconforto costuma não ser agudo nem insuportável. Essa subtileza torna fácil desvalorizar, atribuindo a postura, gases ou tensão muscular. Se a sensação voltar repetidamente, é prudente fazer uma avaliação médica.

3. Náuseas e sensação de enjoo, especialmente após as refeições

Náuseas que surgem com frequência, sobretudo depois de refeições ricas ou pesadas, podem refletir um fígado sobrecarregado, com dificuldades na digestão e no metabolismo.

Alguns doentes referem uma sensação persistente de enjoo, perda de apetite ou tendência para afastar a comida mais cedo do que o habitual. Embora muitos problemas digestivos possam causar náuseas, episódios recorrentes juntamente com outros sinais desta lista aumentam a suspeita.

4. Inchaço e sensação de “estômago pesado”

Pessoas com fígado gordo queixam-se frequentemente de distensão abdominal ou de uma sensação constante de peso após comerem porções até modestas.

Isto pode estar relacionado com digestão mais lenta, alterações na forma como o organismo lida com gorduras e açúcares e, em doença mais avançada, retenção de líquidos no abdómen. Roupa mais apertada na cintura sem motivo claro não deve ser ignorada.

5. Dificuldade em digerir alimentos gordurosos

Refeições ricas em fritos, natas, carnes processadas ou fast food podem desencadear desconforto intenso quando o fígado está “revestido” de gordura.

Os doentes descrevem sentir-se “deitados abaixo” após essas refeições, com azia, arrotos ou a sensação de que a comida fica no estômago durante horas. Com o tempo, muitos começam a evitar intuitivamente certos alimentos porque se sentem tão mal depois.

Quando o fígado está sobrecarregado, tem dificuldade em lidar com a gordura da alimentação, fazendo com que refeições gordurosas pareçam um impacto direto no organismo.

6. Enzimas hepáticas alteradas nas análises ao sangue

Talvez o sinal de alerta mais objetivo surja nas análises de rotina. Mesmo pessoas que se sentem bem podem apresentar elevação de enzimas hepáticas como ALT (TGP), AST (TGO) e GGT.

Teste O que reflete
ALT (TGP) Lesão ou irritação das células do fígado
AST (TGO) Stress das células do fígado e dos músculos
GGT Fluxo da bílis e impacto do álcool ou de medicamentos no fígado

Resultados anormais não confirmam, por si só, fígado gordo, mas frequentemente levam a uma ecografia ou a exames adicionais, que podem revelar acumulação de gordura.

Da gordura silenciosa à doença grave

Se não for controlado, o fígado gordo pode evoluir para inflamação, cicatrização (fibrose) e, em alguns casos, cirrose. Nessa fase, o fígado torna-se rígido e a sua função pode colapsar, levando a insuficiência hepática e a um risco acrescido de cancro do fígado.

O aspeto mais marcante: toda esta progressão pode ocorrer em pessoas que quase não bebem álcool, sendo impulsionada sobretudo por excesso de peso, diabetes tipo 2 e sedentarismo.

Os especialistas estimam que até um quarto dos adultos no mundo possa ter algum grau de fígado gordo, muitas vezes sem o saber.

O que os médicos recomendam como tratamento principal

Os especialistas concordam numa mensagem central: as mudanças no estilo de vida estão no centro do tratamento da doença do fígado gordo. Ainda não existe um “comprimido para o fígado gordo” específico aprovado para uso rotineiro.

Endocrinologistas e hepatologistas sublinham que perder peso de forma gradual e realista tem um impacto mensurável. A investigação sugere que reduzir cerca de 7% do peso corporal pode começar a diminuir a gordura no fígado, com benefícios adicionais à medida que a perda de peso continua.

Hábitos que podem ajudar a reverter o fígado gordo

  • Perda de peso gradual: Procure reduções pequenas e consistentes, em vez de dietas “relâmpago”, difíceis de manter.
  • Comida real e pouco processada: Baseie as refeições em legumes, leguminosas, cereais integrais, fruta e proteína magra como peixe, ovos e aves.
  • Repensar o álcool: Para quem tem fígado gordo, os médicos recomendam frequentemente reduzir de forma significativa ou parar por completo.
  • Menos açúcar e farinha branca: Refrigerantes, doces, bolos e pão branco promovem a acumulação de gordura no fígado.
  • Prato equilibrado: Metade do prato com legumes, um quarto com proteína magra e um quarto com hidratos de carbono integrais.
  • Mexer mais, sentar menos: Caminhada rápida, bicicleta, natação e treino de força ajudam o corpo a usar a gordura armazenada como combustível.
  • Priorizar o sono: Sono curto ou interrompido desregula hormonas que controlam apetite, peso e açúcar no sangue.
  • Controlar condições associadas: Verificações regulares de glicemia, colesterol e tensão arterial ajudam a proteger o fígado.
  • Cuidado com medicamentos e suplementos: Alguns produtos à base de plantas e analgésicos sem receita podem ser tóxicos para o fígado em doses elevadas.
  • Manter o seguimento médico: Exames repetidos mostram se as mudanças de estilo de vida estão realmente a aliviar o esforço do fígado.

Como pode ser o percurso típico de um doente

Muitas pessoas ouvem falar pela primeira vez de fígado gordo após um “check-up de rotina” no trabalho ou uma revisão geral de saúde. Um trabalhador de escritório de 45 anos, por exemplo, pode fazer análises padrão e ser informado de que as enzimas hepáticas estão ligeiramente elevadas.

Uma ecografia mostra depois depósitos de gordura no fígado. O doente pode sentir-se globalmente bem, exceto por um cansaço persistente e aumento do perímetro abdominal. Em vez de prescrever de imediato um “cocktail” de medicamentos, o clínico costuma priorizar perda de peso, melhor alimentação, movimento regular e menos álcool.

Ao longo de três a seis meses, com mudanças consistentes, análises repetidas mostram frequentemente uma descida das enzimas hepáticas e uma imagem ecográfica mais saudável. Para alguns, este é o alerta que evita a progressão para cirrose anos mais tarde.

Termos-chave que muitas vezes confundem os doentes

A linguagem médica em torno das doenças do fígado pode ser confusa. Dois termos surgem com frequência:

  • Esteatose: Termo médico para gordura armazenada no fígado. Refere-se à fase “gorda”, antes de surgir cicatrização.
  • Fibrose: Significa cicatrização do tecido hepático. Quanto mais fibrose, mais o fígado se aproxima da cirrose e da perda de função.

Por vezes, as pessoas assumem que vão sentir-se muito doentes assim que o dano começa. No fígado gordo, essa suposição pode ser enganadora. O órgão costuma manter-se “silencioso” até a doença estar avançada - por isso, esses seis sintomas subtis, além dos exames de rotina, são tão importantes.

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