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Este hábito de um minuto pode aumentar a autoconfiança do seu filho.

Mulher e criança jogam com as mãos na cozinha, felizes. Mesa com jarro de notas e papel. Fruta ao fundo.

Um ritual de um minuto que fica mesmo

Entre TPC esquecidos, sapatos que desaparecem e a correria para sair de casa, custa arranjar espaço para “mais uma coisa” na manhã. Ainda assim, um ritual de 60 segundos, feito ao nível dos olhos, pode ajudar a criança a começar o dia com mais segurança - sobretudo quando é simples e repetido com regularidade.

A psicóloga infantil francesa Marine Darnat tornou conhecida uma técnica assente em frases curtas e concretas do tipo “Eu sou…”, contadas nos dedos. Para muitas crianças (em especial entre os 3 e os 10 anos), o toque e o movimento fazem com que as palavras se fixem melhor do que uma conversa longa.

Frases repetidas, credíveis e ditas em voz alta com um adulto de referência ajudam a construir uma “voz interior” mais apoiante.

Como funciona o jogo da mão que aumenta a confiança

A ideia base é: contacto visual + toque leve + repetição. Demora menos de um minuto.

Fique à altura da criança (sentados ou de pé), olhem-se nos olhos e estenda a mão, com a palma virada para cima. Toque suavemente em cada dedo, um a um, e digam a frase em conjunto. Se a criança não gostar de contacto (ou tiver maior sensibilidade), faça o gesto “no ar” e deixe-a levantar os próprios dedos.

As seis frases-chave

Uma versão comum do ritual é esta:

  • “Eu sou amado(a)”
  • “Eu sou capaz”
  • “Eu sou corajoso(a)”
  • “Eu sou inteligente”
  • “Eu sou gentil”
  • “Eu tenho orgulho em mim”

A cada frase, levanta-se um dedo. No fim, a criança fecha a mão como se estivesse a “guardar” algo importante e finge colocar esse “pacote de confiança” no bolso ou na mochila.

O gesto ajuda a transformar ideias abstratas (coragem, gentileza) em algo que a criança sente como “meu” e que pode levar para a escola.

Isto vai ao encontro do que a psicologia descreve como “cognição incorporada”: quando o corpo participa, a aprendizagem tende a ficar mais estável. Regra prática: quanto mais curto e repetível, melhor (30–60 segundos, em dias úteis, durante algumas semanas).

Porque é que estas frases funcionam na mente de uma criança

As frases tocam em pilares frequentes da autoimagem infantil:

Frase O que reforça
Eu sou amado(a) Segurança e pertença
Eu sou capaz Confiança para aprender e tentar
Eu sou corajoso(a) Enfrentar medos e situações novas
Eu sou inteligente Pensar, resolver problemas, aprender com erros
Eu sou gentil Valor em atitudes, não só em resultados
Eu tenho orgulho em mim Satisfação interna, não apenas aprovação externa

O essencial é que sejam específicas e plausíveis. “Eu sou inteligente” resulta melhor quando, ao longo do dia, também é ligada a exemplos concretos (“pensaste numa solução”, “experimentaste outra estratégia”). Assim, a criança constrói uma base mais sólida: um deslize, uma nota menos boa ou um conflito no recreio não passam a definir quem ela é.

O que as escolas já estão a testar

A autoconfiança também se trabalha na escola. No 1.º ciclo, é comum encontrar práticas simples: momentos de partilha durante a chamada, registo de conquistas, ou perguntas rápidas de reflexão no final do dia.

Um exemplo é o “Treasure File”, estudado e divulgado em contexto científico, onde as crianças registam sucessos, qualidades e experiências positivas num “arquivo de tesouros”. O objetivo não é ignorar dificuldades, mas criar um histórico de competências a que a criança possa voltar quando a motivação baixa.

Quando a criança aprende a nomear pontos fortes e a rever pequenas vitórias, a sensação de competência tende a crescer com mais consistência.

Quando casa e escola usam mensagens parecidas (valores, esforço, progresso), a criança recebe o mesmo “eco” de vários adultos de confiança - o que, em geral, reforça o efeito.

Transformar o hábito num jogo, não numa pressão

Este método funciona pelo tom, não pela perfeição. Se se transformar numa obrigação, perde força. A criança deve sentir calor e presença, não avaliação.

Dicas práticas para pais

  • Use uma voz calma e leve, quase como uma lengalenga.
  • Participe em alguns dias (“Hoje nós somos capazes”) para aliviar a pressão.
  • Ajuste as frases à idade e ao momento: “Hoje eu consigo tentar outra vez” pode ser mais útil do que “Eu sou capaz”.
  • Em manhãs difíceis, valide primeiro: “Estás cansado(a). Mesmo assim, és capaz de dar um passo de cada vez.”
  • Reuse o gesto do “bolso” mais tarde (“Queres ir buscar a coragem ao bolso?”) como lembrete rápido, sem sermão.

Para uma criança tímida, “corajoso(a)” pode ser apenas dizer “bom dia” à professora. Para uma criança com dificuldades na leitura, “capaz” deve apontar para o processo (praticar, repetir, pedir ajuda), e não para “ser bom/boa”.

Quando as afirmações podem correr mal

Afirmações demasiado grandes (“És o/a melhor”, “És um génio”) podem criar medo de falhar: se não conseguir corresponder ao rótulo, a criança evita desafios ou sente vergonha.

Também falham quando entram em choque com a realidade percebida. Uma criança que está a lutar com Matemática não vai acreditar em “És incrível a Matemática” - pode sentir-se incompreendida. Melhor é ligar a frase a comportamentos observáveis: “Estás a aprender”, “Ainda não saiu, mas continuaste”, “Pediste ajuda”.

A confiança cresce quando os elogios soam verdadeiros e ligados a ações, não a slogans.

Se notar ansiedade intensa, choro frequente antes da escola, queixas físicas recorrentes (dor de barriga/cabeça) ou uma queda acentuada do humor durante várias semanas, o ritual pode ajudar - mas não substitui apoio profissional.

Construir uma confiança realista, não frágil

O ritual não é mágico. Ganha força quando a mensagem é coerente no dia a dia: errar é permitido, o esforço conta, e o amor não depende do desempenho.

Depois da escola, perguntas curtas e específicas costumam resultar melhor do que “Como foi?”:

  • “O que hoje te saiu um bocadinho melhor do que ontem?”
  • “O que fizeste mesmo com medo?”
  • “Com quem foste gentil hoje?”

Isto orienta a atenção para progresso e valores, sem tapar dificuldades.

Exemplos de situações do dia a dia

Uma criança com receio de falar na aula, ao fim de algumas semanas, levanta a mão para ler uma frase. Em casa, o adulto liga o comportamento ao ritual: “Isso foi seres corajoso(a) e capaz.” As palavras deixam de ser abstratas.

Outro cenário: um teste com nota baixa. Em vez de crítica ou de um “não faz mal” automático, o adulto regressa ao significado prático de “inteligente”: “Vamos perceber o que correu mal e qual é o próximo passo.” A frase passa a apontar para aprendizagem, não para “ser perfeito”.

Hábitos relacionados que amplificam o efeito

Se quiser ir além do minuto, combine com rotinas simples e fáceis de manter:

  • “Vitórias da semana” no frigorífico (uma por pessoa, sem competição).
  • Ao deitar: “O que gostaste em ti hoje?”
  • Desenhar as seis frases com símbolos/cores para as crianças mais pequenas “verem” cada ideia.

Com o tempo, isto cria uma linguagem familiar para reconhecer coragem, esforço e gentileza em ações reais. E para quem está sobrecarregado, a vantagem mantém-se: é uma prática sem materiais, sem ecrãs e sem grande preparação - apenas presença por um minuto.

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