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A psicologia explica porque quem cresceu nas décadas de 60 e 70 desenvolveu sete forças mentais hoje vistas como traumas em vez de resistência.

Idoso e jovem sentados no chão, olhando fotos em um álbum, com um rádio e uma caneca ao lado.

A mulher à minha frente no supermercado devia ter uns 65 anos. Dobrou o talão três vezes, enfiou-o na carteira como se fosse confidencial e fez aquele pequeno aceno que os mais velhos fazem quando já fizeram as contas na cabeça. Sem app, sem calculadora - apenas décadas de “não se desperdiça dinheiro, sobrevive-se com ele”.

Atrás dela, um adolescente deslizava o dedo no telemóvel, com auriculares, e pagava com o relógio. Dois mundos na mesma fila de caixa. Dois sistemas nervosos também. Um moldado por telefones de disco, tardes a abrir a porta com a chave ao pescoço e o “as crianças devem ser vistas e não ouvidas”. O outro criado com podcasts sobre parentalidade consciente e avisos de gatilho.

Não são apenas gerações diferentes. São a prova de como a psicologia mudou os rótulos dos mesmos comportamentos.

As sete “forças” que os Boomers construíram em silêncio

Quem cresceu nas décadas de 1960 e 1970 fala muitas vezes da infância como um campo de treinos para o qual nunca se inscreveu. Chegavas a casa da escola, largavas a mochila e a regra não dita era simples: aguentar. Sem terapia, sem linguagem para sentimentos, apenas uma pele grossa que era elogiada.

A psicologia da época via a dureza como padrão-ouro. Uma criança que não chorava, que “ultrapassava”, que levava uma bofetada ou uma palavra dura e seguia em frente era chamada de madura. Essa medalha ficou presa ao peito de muitos adultos durante os 50 anos seguintes.

Veja-se, por exemplo, o silêncio emocional. Um pai chega a casa em 1973, exausto de um turno na fábrica. O filho quer falar sobre estar a ser alvo de bullying. O pai, criado na mesma cultura, responde com o clássico: “A vida é assim. Faz-te forte.” Sem perguntas. Sem acompanhamento. O rapaz aprende algo: os sentimentos são um problema privado, não uma realidade partilhada.

Essas crianças tornaram-se adultos que guardam tempestades inteiras cá dentro. Muitos criaram famílias, construíram carreiras, mantiveram-se “fortes” enquanto lentamente se esqueciam do que é ser consolado em vez de corrigido.

Hoje, a psicologia chama a esse padrão supressão emocional. Não estoicismo. Não maturidade. Uma estratégia de sobrevivência nascida em ambientes onde a vulnerabilidade parecia insegura ou inútil. Pode parecer força - e por vezes é - mas também sobrecarrega o sistema nervoso com stress não processado.

O mesmo acontece com outras supostas forças dessa era: hiperindependência (“não preciso de ninguém”), responsabilidade crónica excessiva (“se algo falha, é culpa minha”), necessidade de agradar (“não agites as águas”) e uma reacção quase alérgica a pedir ajuda.

O que antes era elogiado como resiliência é hoje visto, à luz da investigação sobre trauma, como adaptação à escassez emocional.

De “era assim” para “foi isto que me fez”

Uma mudança prática que muitos miúdos dos anos 60–70 estão a fazer começa com uma pequena pausa interior. Em vez de dizer automaticamente “estou bem” ou “outros tiveram pior”, perguntam mentalmente: “O que é que o meu eu pequeno aprendeu com isto?” Essa pergunta abre uma porta que as gerações mais velhas raramente tocavam.

O método parece quase infantil. Pegas numa cena específica da infância - ficar sozinho a noite toda, ser gozado por chorar, ser obrigado a comer tudo o que está no prato - e revês como se estivesses a ver a história de um desconhecido. Depois descreves, em linguagem simples, o que aquela criança teve de fazer para sobreviver ao momento.

Muitas pessoas ficam surpreendidas com o fosso entre a história que sempre contaram (“os meus pais eram rígidos, só isso”) e o que o corpo recorda. Um homem no início dos 60 disse a uma terapeuta que nunca pensava muito no passado. No entanto, sempre que a mulher se atrasava, o peito apertava, a mandíbula travava. Só quando revisitou o facto de ter sido esquecido várias vezes na creche nos anos 70 é que o padrão fez sentido.

Aquele momento “sem importância” tinha moldado uma vida inteira de hipervigilância e controlo. Ele não era “apenas organizado”. Era organizado contra o abandono.

É aqui que a nova linguagem do trauma encontra a velha cultura da dureza.

Reconhecer o trauma não apaga as competências que essas gerações construíram. Explica o custo. O adulto que funciona sob pressão insana aprendeu isso em criança, a navegar o caos sozinho. A mulher que nunca chora em público treinou-se depois de ser gozada por chorar em 1968. As forças são reais. As nódoas negras por baixo também.

A psicóloga Nadine Burke Harris chama a isto “stress tóxico” - o tipo que não ocupa apenas a mente, mas literalmente remodela o cérebro e o corpo ao longo do tempo.

  • Hiperindependência - parece eficiência, muitas vezes esconde medo de depender de alguém
  • Evitar conflitos - mantém a paz, bloqueia a verdadeira intimidade
  • Sobre-adaptação - ser “fácil” para ninguém se chatear contigo
  • Vício no trabalho - elogiado por chefias, alimentado por velhos sentimentos de nunca ser suficiente
  • Entorpecimento emocional - protegeu-te antes, isola-te agora

Reenquadrar a dureza sem apagar o que custou

Uma prática suave que ajuda muitos adultos dos anos 60–70 é o que alguns terapeutas chamam de “lembrar em ambos/e”. Em vez de reescrever o passado como totalmente horrível ou totalmente aceitável, seguram as duas verdades ao mesmo tempo. “Os meus pais amavam-me e assustavam-me.” “Aprendi a ser forte e também me senti muito sozinho.”

Isto não é sobre acusar ninguém. É sobre libertar o teu eu mais novo do mito de que foste fraco por teres dificuldade. Dar nome à dor não anula o amor. Apenas coloca o peso onde ele realmente pertence.

Uma armadilha comum aqui é correr para o perdão antes de sentir o que quer que seja. As pessoas saltam para “eles fizeram o melhor que puderam” como atalho para contornar o desconforto. A empatia é bonita, mas quando chega demasiado cedo, torna-se um desvio: saltas a tua própria dor para proteger o mesmo sistema que a criou.

Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias, religiosamente. A cura raramente é um plano linear com tópicos e hábitos perfeitos de journaling. Há semanas em que te lembras de três coisas. Há meses em que fechas a porta por completo. Isso continua a ser movimento.

“Um dos legados mais cruéis dessa era”, disse-me uma terapeuta familiar, “é que muita gente aprendeu a minimizar o próprio sofrimento porque, algures, alguém tinha sempre pior. O trauma não é uma competição. O teu sistema nervoso não consulta as notícias antes de reagir.”

Para navegar isto, muitos acham útil manter uma “caixa de reenquadramento” mental:

  • Trocar “eu era dramático” por “eu estava sobrecarregado e sozinho com isso”
  • Trocar “sou tão carente” por “finalmente estou a reparar nas minhas necessidades”
  • Trocar “já devia ter ultrapassado isto” por “uma parte de mim ainda está lá, a pedir para ser vista”
  • Trocar “a minha infância foi normal” por “a minha infância foi comum, não necessariamente saudável”
  • Trocar “estou estragado” por “adaptei-me com muita força a coisas que uma criança não devia enfrentar”

E se força significasse sentir-se seguro, não apenas sobreviver?

Muitas pessoas criadas nas décadas de 1960 e 1970 olham para as conversas actuais sobre trauma com sentimentos mistos. Algumas sentem-se desvalorizadas, como se a sua resistência estivesse de repente a ser diagnosticada. Outras sentem um alívio silencioso: “Então era isso. Eu não era apenas mau a ser criança.” Ambas as reacções são válidas.

A pergunta mais profunda não é se essa era foi “boa” ou “má”. É que tipo de adultez produziu. Sete hábitos centrais - silêncio emocional, hiperindependência, necessidade de agradar, responsabilidade excessiva, evitamento de conflitos, trabalho como identidade e entorpecimento - deram a uma geração inteira o poder de funcionar quase em qualquer circunstância. Também tornaram o descanso, a confiança e receber amor muito mais difíceis do que deviam ser.

Esta nova lente psicológica não rouba a ninguém a sua dureza. Apenas pergunta: ainda queres carregar tudo isso, o tempo todo? Algumas dessas forças podes mantê-las, nos teus termos. A capacidade de ficar calmo numa crise, o jeito para resolver problemas, o sentido de realidade bem assente - são dons.

Outras talvez possas reformar com gentileza. O reflexo de nunca pedir ajuda. O orgulho em sofrer em silêncio. A crença de que precisar de conforto é infantil. É aqui que a linguagem actual do trauma pode amolecer a armadura de ontem, sem apagar como essa armadura te protegeu.

Talvez essa seja a revolução silenciosa deste momento. Crianças dos anos 60 e 70, que antes iam para casa sozinhas com uma chave ao pescoço, estão finalmente a voltar para si próprias. Mais devagar desta vez. Menos assustadas com aquilo de que se vão lembrar.

Estão a descobrir que força não é apenas sobreviver ao que aconteceu. Força é também ousar dizer: aconteceu, e moldou-me - mas já não tem de definir todas as partes da minha história.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
As antigas “forças” eram estratégias de sobrevivência Silêncio, hiperindependência e responsabilidade excessiva protegiam crianças em casas com escassez emocional Ajuda-te a parar de te culpares e a ver os padrões como adaptações, não como defeitos
A psicologia mudou a linguagem O que era elogiado como dureza é agora compreendido através da investigação sobre trauma e stress tóxico Dá um enquadramento moderno para reler o passado sem o reescrever como totalmente mau
O reenquadramento pode ser feito com gentileza Usar “lembrar em ambos/e” e trocas mentais simples suaviza a vergonha e a defensividade Oferece formas concretas de curar, honrando a resiliência real que construíste

FAQ:

  • Pergunta 1: Chamar “trauma” a estes padrões é desrespeitoso para quem sofreu abuso extremo ou guerra?
    Não. O trauma não é um concurso. O termo descreve apenas como o teu sistema nervoso foi sobrecarregado. Experiências diferentes podem produzir efeitos internos semelhantes sem apagar a dor de ninguém.
  • Pergunta 2: Quais são sinais de que a minha “dureza” pode ser trauma?
    Entorpecimento persistente, nunca pedir ajuda, pânico quando os outros ficam chateados contigo, trabalhar em excesso para te sentires digno, ou sentir culpa quando descansas são sinais comuns de antigas estratégias de sobrevivência a comandar.
  • Pergunta 3: Posso trabalhar isto sozinho, sem terapia?
    Podes começar sozinho com escrita/journaling, livros e auto-reflexão suave. Se as memórias forem avassaladoras, ou se as relações estiverem muito afectadas, um terapeuta com formação em trauma pode oferecer uma estrutura mais segura.
  • Pergunta 4: Como falo com os meus pais sobre isto sem os culpar?
    Usa frases no “eu”: “Percebi que, em criança, aprendi a desligar os meus sentimentos, e agora estou a tentar fazer diferente.” Foca-te na tua experiência, não nas intenções deles, e aceita que podem nunca compreender totalmente.
  • Pergunta 5: É tarde demais para mudar se já estou nos 50, 60 ou 70?
    Não. O cérebro mantém plasticidade ao longo da vida. Pequenas mudanças - permitir conforto, pedir ajuda uma vez, nomear um sentimento em voz alta - podem, lentamente, reconfigurar o quão seguro te sentes no mundo e na tua própria pele.

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