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A psicologia alerta que permitir às crianças expressar todas as emoções pode prejudicar o seu futuro.

Mulher e criança em casa, sentados no chão, interagindo com uma bola azul. Ao fundo, brinquedos e um quadro de emoções.

O menino está a gritar no corredor do supermercado, punhos cerrados, lágrimas a escorrer-lhe pelas bochechas porque não conseguiu a caixa de cereais azul-vivo. A mãe fica parada, maxilar tenso, a repetir o que ouviu num podcast: “Força, expressa as tuas emoções, não guardes nada.” As pessoas passam; umas sorriem com este “estilo moderno de educar”, outras reviram os olhos. Os gritos do menino aumentam. Dez minutos depois, está vermelho, exausto e continua furioso. A mãe parece igualmente esgotada.

Nas redes sociais, esta cena é muitas vezes celebrada como “emocionalmente saudável”.

Mas os psicólogos começam a dizer: não exatamente.

Quando “expressa todas as tuas emoções” falha em silêncio

Na última década, um novo mantra infiltrou-se nos círculos parentais: deixar as crianças expressarem tudo. Raiva, frustração, tédio, ciúme, fúria. Nada deve ser “travado”. À primeira vista, soa caloroso, progressista, quase terapêutico. Depois de gerações de “Para de chorar ou dou-te motivos para chorares”, muitos pais querem fazer o oposto.

No entanto, algo estranho está a acontecer em salas de aula, consultórios de terapia e locais de trabalho. Adolescentes e jovens adultos chegam com uma competência afinada até à perfeição: conseguem descrever o que sentem com grande detalhe.

O que muitas vezes não conseguem é regular essas emoções.

Pergunte a qualquer professor experiente sobre “emoções grandes” na sala de aula. Vai falar-lhe de crianças de 7 anos a atirar cadeiras porque um jogo acabou, de miúdos de 10 anos a sair disparados quando perdem, de adolescentes de 14 anos a enviar e-mails furiosos a professores que lhes deram um 8/10. Muitos destes miúdos cresceram em casas onde nada emocional era considerado “demais”. Disseram aos pais que cada onda tinha de poder rebentar.

Os psicólogos clínicos veem o mesmo padrão. A literacia emocional é elevada: as crianças sabem nomear raiva, ansiedade, injustiça, frustração. Mas a tolerância à frustração é, por vezes, incrivelmente baixa. Um “não” de um adulto é sentido como um ataque pessoal, não como um limite. Um desacordo com um amigo parece traição, não um conflito normal.

Então, o que se passa? A psicologia distingue duas coisas muito diferentes: reprimir emoções e contê-las. Reprimir é fingir que nada se passa, engolir lágrimas, desligar. Contê-las é reconhecer a emoção, nomeá-la… mas não deixá-la controlar cada ação na divisão. Quando dizemos a uma criança que deve sempre “deitar tudo cá para fora”, por vezes confundimos liberdade com ausência de limites.

Um sistema nervoso que nunca encontra uma fronteira não aprende a abrandar. Aprende que cada tempestade interior merece trovões cá fora. Isso tem consequências a longo prazo: dificuldades com a autoridade na escola, relações frágeis, decisões impulsivas no trabalho e a crença constante de que “se eu sinto isto com força, tenho de agir”.

Ensinar as crianças a sentir… sem serem governadas pelos sentimentos

Então, o que podem os pais fazer em vez disso? A abordagem mais saudável, defendida por muitos psicólogos, é simples: validar a emoção, orientar a expressão. Parece mais discreta do que os conselhos virais do Instagram, mas é muito mais poderosa. Uma criança grita porque perdeu um jogo. Não se diz “Não sejas parvo, é só um jogo.” Também não se diz “Sim, deita tudo cá para fora em cima do teu irmão.”

Ajoelha-se, olha-se nos olhos e diz-se algo como: “Estás mesmo zangado por teres perdido. Eu percebo. Mas não batemos quando estamos zangados. Vamos respirar juntos primeiro.” A emoção é bem-vinda. O comportamento não. É nessa pequena distinção que começa a maturidade emocional.

Os pais têm muitas vezes medo de que, ao limitar explosões emocionais, estejam a voltar ao estilo frio da sua própria infância. Lembram-se de lhes terem dito para “se fazerem fortes” e não querem repetir isso. Por isso, balançam para o extremo oposto e permitem cada explosão como sinal de autenticidade. Mas as crianças não se sentem mais seguras no caos. Sentem-se mais seguras quando os adultos são contentores, não espelhos.

Sejamos honestos: ninguém consegue fazer isto todos os dias, sem falhas. Há noites em que só se quer que a birra acabe. Diz-se que sim a mais tempo de ecrã ou a um brinquedo novo, só para manter a paz. O problema é que, se isso se torna a regra, a criança aprende que emoções grandes e espetaculares são a forma mais rápida de mudar a realidade.

A psicóloga Lisa Damour diz-o de forma direta: “As emoções são como o tempo. Não controlamos quando chove, mas podemos ensinar as crianças a não inundarem a casa sempre que há uma tempestade.”

  • Passo 1: Nomear a emoção - “Estás desiludido”, “Estás furioso”, “Estás com medo agora.” Dar nome acalma o cérebro.
  • Passo 2: Definir o enquadramento - “Podes dizer-me o quão zangado estás, mas não me podes insultar nem partir coisas.”
  • Passo 3: Oferecer uma saída segura - desenhar, saltar, bater numa almofada, ir para outra divisão durante alguns minutos.
  • Passo 4: Rever mais tarde - quando tudo estiver calmo, falar brevemente sobre o que aconteceu e o que podem tentar da próxima vez.
  • Passo 5: Repetir - não de forma heroicamente perfeita, apenas com consistência suficiente para que o sistema nervoso comece a esperar limites.

Entre a repressão e o caos: o delicado caminho do meio

Todos já passámos por isso: aquele momento em que o seu filho tem um colapso em público e sente os olhos de toda a gente em cima de si. Nesses segundos, a teoria desaparece. Fica preso entre a voz antiga na cabeça (“Pára já com isso”) e a nova pressão social (“Respeita as emoções dele!”). A verdade está algures nesse meio confuso. As crianças precisam profundamente de sentir que o seu mundo interior é bem-vindo. E também precisam de entender que existem outras pessoas e que as suas emoções não são uma chave mágica que abre todas as portas.

Criar uma criança que sente tudo é bonito; criar uma criança que acha que cada sentimento tem de mandar é uma armadilha.

A psicologia não diz “Não deixes a tua criança expressar emoções.” Alerta, sim, para o risco de transformar a expressão ilimitada numa virtude em si mesma. Uma criança autorizada a gritar aos pais, insultar professores, ameaçar amigos ou negociar todas as regras a chorar aprende que o controlo vem da pressão emocional. Aos 5 anos, isso parece uma birra no chão. Aos 15, pode parecer chantagem emocional. Aos 25, pode tornar-se burnout, porque ninguém no trabalho cede a todas as tempestades.

Em adultos, estas crianças podem ter dificuldades também no amor. Parceiros que discordam são vistos como inimigos, não como pessoas com necessidades próprias. Cada conflito parece abandono.

O que ajuda é a repetição calma e firme de três mensagens: “Os teus sentimentos são reais.” “Eles vão passar.” “Eles não decidem tudo.” Estas frases soam pequenas, quase aborrecidas, comparadas com as promessas dramáticas de algumas tendências parentais. Mas constroem aquilo a que os psicólogos chamam regulação emocional: a capacidade de sentir muito, pensar um pouco e depois agir.

A verdade simples é: liberdade emocional sem competências emocionais não é liberdade - é dependência. Dependência de estados de espírito, impulsos e reações dos outros. Quando ensinamos uma criança a parar, respirar e esperar alguns minutos antes de reagir, não estamos a matar a sua espontaneidade. Estamos a dar-lhe um futuro em que ela é mais do que uma marioneta do seu clima interior.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
A emoção não é o inimigo As crianças precisam de ver os seus sentimentos nomeados, validados e acolhidos Reduz a culpa em torno de emoções “negativas” e diminui a tensão do dia a dia
A expressão precisa de um enquadramento Explosões ilimitadas ensinam as crianças que a intensidade traz poder Ajuda os pais a estabelecer limites sem se sentirem duros ou antiquados
Ensinar regulação cedo Respirar, fazer pausas, saídas seguras e conversas após a crise Constrói resiliência a longo prazo na escola, nas amizades e mais tarde no trabalho

FAQ:

  • Pergunta 1 A psicologia diz mesmo que as crianças não devem expressar todas as emoções?
  • Resposta 1 Os psicólogos incentivam as crianças a sentir e nomear todas as emoções, mas alertam contra deixar cada sentimento explodir para fora sem limites nem orientação.
  • Pergunta 2 Limitar a expressão não é o mesmo que repressão emocional?
  • Resposta 2 Não. A repressão nega o sentimento; limites saudáveis reconhecem-no e depois encaminham o comportamento de forma segura e respeitosa.
  • Pergunta 3 Que danos a longo prazo pode causar a expressão ilimitada?
  • Resposta 3 Pode criar baixa tolerância à frustração, relações conflituosas, dificuldade com regras e autoridade, e reações impulsivas na vida adulta.
  • Pergunta 4 Como posso responder no momento durante uma birra?
  • Resposta 4 Mantenha-se calmo, nomeie a emoção, estabeleça um limite claro e ofereça uma alternativa concreta, como respirar em conjunto ou ir para um espaço mais calmo.
  • Pergunta 5 E se eu já deixei o meu filho “mandar” através das emoções durante anos?
  • Resposta 5 Ainda pode reajustar, introduzindo novos limites com calma, explicando-os de forma breve e mantendo-os com calor humano e consistência ao longo do tempo.

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