Saltar para o conteúdo

A motivação distorce as memórias, tal como uma lente de câmara, e alimenta um novo conflito na psicologia.

Homem observa foto com lupa, câmara ao lado. Mulher escreve em caderno com chá na mesa. Ambiente iluminado.

Numa terça-feira chuvosa de outubro, uma estudante de pós-graduação em psicologia está sentada num cubículo minúsculo de laboratório, a olhar fixamente para uma apresentação de diapositivos com formas aleatórias e rostos estranhamente neutros. Uma semana depois, jura que se lembra de um homem a sorrir, com uma camisa azul, que na verdade nunca apareceu. O que mudou? Uma só coisa: a história que lhe contaram sobre o que “realmente” importava na experiência. O objetivo, o que estava em jogo, o empurrão subtil sobre onde prestar atenção. A sua motivação.

Este é o lugar silencioso onde a memória deixa de ser um registo simples e se transforma em algo mais confuso, mais pessoal, mais político.

E, neste momento, essa confusão está a rebentar numa nova guerra cultural da psicologia.

Quando a motivação torce o passado como uma lente de câmara

A maioria de nós cresceu com uma ideia reconfortante: a memória é uma espécie de disco rígido mental. Guardas experiências e, mais tarde, abres o ficheiro e revês tudo. Limpo. Neutro. Mais ou menos objetivo. Mas quanto mais os investigadores pressionam essa crença, mais ela se desfaz.

O que entra nesse vazio é uma imagem mais nítida e inquietante. Os nossos objetivos, medos e identidades funcionam como uma lente de câmara, distorcendo discretamente o que é captado logo à partida. A motivação não se limita a colorir as memórias. Pode esculpi-las.

Isto assusta alguns cientistas. Entusiasma outros.

Um dos exemplos mais marcantes vem de estudos sobre “memória motivada” em torno de acontecimentos políticos. Durante as eleições norte-americanas de 2016, vários laboratórios pediram às pessoas que recordassem manchetes de notícias e momentos-chave meses mais tarde. Republicanos e Democratas não discordavam apenas sobre o significado desses momentos. Lembravam-se de factos diferentes.

Os mesmos debates. Os mesmos escândalos. Bobinas mentais diferentes.

Quando os investigadores testaram a precisão, viram um padrão. As pessoas tinham muito mais probabilidade de recordar pormenores que favoreciam o seu lado e de lembrar mal - ou simplesmente “perder” - pormenores que ajudavam o lado oposto. Não era mentira consciente. Era mais profundo, como se a mente tivesse editado discretamente as imagens muito antes de alguém carregar no play.

Os psicólogos discutem agora o que isto realmente significa. Um grupo diz que a motivação é, no essencial, um “filtro de prioridades”: lembramo-nos do que parece útil para os nossos objetivos, da sobrevivência ao estatuto social. Outro grupo afirma que vai mais longe - que os nossos objetivos podem enviesar a forma como as memórias se formam, até ao nível químico.

E isto não são apenas debates de laboratório. Transbordam para o tribunal quando testemunhas oculares discordam; para a terapia quando as pessoas questionam memórias de infância; para a política quando cada tribo afirma que a sua versão da história é a verdadeira. Se a motivação pode distorcer aquilo de que nos lembramos, quem decide quais as memórias que contam como verdade?

Essa pergunta está a virar métodos e carreiras do avesso.

Como reparar quando a sua própria lente está a dobrar a história

Há um passo pequeno e prático que os investigadores estão a ensinar discretamente aos seus próprios estudantes: narrar a sua motivação em voz alta antes de “guardar” uma memória. Parece básico, quase parvo. Logo a seguir a uma conversa acalorada ou a um grande acontecimento noticioso, tira 60 segundos e escreve: “O que é que eu mais quero que seja verdade sobre isto?”

Pode surpreender-se com o que sai. Talvez quisesse ser a pessoa razoável na discussão. Talvez precisasse que o seu lado fosse o lado inteligente. Talvez só quisesse sentir-se em segurança.

Quando esse motivo fica no papel, a memória parece diferente. Menos sagrada. Mais negociável.

As pessoas que experimentam este exercício reparam muitas vezes numa coisa estranha à segunda ou terceira tentativa. Lembram-se da mesma discussão, mas com cores emocionais diferentes consoante o dia. À segunda-feira, têm a certeza de que a outra pessoa gritou primeiro. À sexta-feira, depois de uma semana mais calma, já não têm tanta certeza. Essa oscilação é a lente a mudar.

Todos já passámos por isso: aquele momento em que um amigo conta a história do “que aconteceu” e mal nos reconhecemos nela. Não estão necessariamente a mentir. Estão apenas a proteger uma versão de si próprios com a qual conseguem viver.

Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias, sem falhar.

Os terapeutas que trabalham com sobreviventes de trauma estão mesmo no centro desta guerra cultural. Alguns são acusados de “implantar” memórias, ao encorajar as pessoas a reinterpretar o passado através de novos enquadramentos motivacionais. Outros argumentam que a cura exige literalmente uma nova história, uma nova lente, uma nova forma de recordar.

“A memória não é um ficheiro que se abre. É uma história que ainda está a escrever - e a caneta na sua mão é a sua motivação atual.”

  • Antes de fixar uma memória
    Pare e pergunte: “Que resultado é que eu, em segredo, espero que esta memória sustente?”
  • Quando surgem conflitos sobre “o que aconteceu mesmo”
    Foque-se primeiro nos factos partilhados e depois explore, com cuidado, os diferentes motivos em jogo.
  • Ao ler manchetes ou tópicos virais
    Repare em que versão dos acontecimentos o faz sentir-se moralmente superior. Normalmente é aí que a sua lente está mais espessa.
  • Em escrita de diário pessoal
    Escreva duas versões do mesmo evento: uma em que é o herói e outra em que não é. Depois permaneça com o desconforto.
  • Quando a memória de alguém colide com a sua
    Pergunte: “O que é que esta história precisaria de proteger para essa pessoa?”, em vez de “Porque é que estão a mentir?”

Uma revolução silenciosa na forma como discutimos a realidade

Quanto mais esta investigação aprofunda, mais colide com as nossas lutas públicas sobre a verdade. Um lado do mundo da psicologia reforça a objetividade, insistindo em experiências mais rigorosas e ferramentas mais precisas para separar memórias “reais” de memórias motivadas. O outro lado inclina-se para a confusão, argumentando que os seres humanos criam significado, não são câmaras, e que tentar retirar a motivação é como pedir a alguém para respirar sem pulmões.

Isto não é apenas uma diferença técnica. Molda a forma como falamos de desinformação, “experiência vivida”, cultura do cancelamento e quem tem direito a contar a história oficial de um movimento ou de um trauma. Quando ambos os lados trazem memórias distorcidas para a mesa, os factos por si só raramente resolvem a disputa.

O que mudaria se todos começássemos por admitir que os nossos passados são influenciados por aquilo de que precisamos para nos sentirmos certos, seguros ou bons hoje? As discussões amaciariam se as pessoas pudessem dizer: “É assim que eu me lembro, e é isto que esta memória faz por mim”? Ou essa honestidade faria com que confiássemos ainda menos uns nos outros? A investigação ainda não terminou. Nem a guerra cultural. E a lente continua nas suas mãos.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
A motivação molda a memória Objetivos, medos e identidade atuam como uma lente que filtra quais os pormenores que ficam guardados e quais se apagam Ajuda a perceber porque é que pessoas honestas podem lembrar-se de forma tão diferente do mesmo evento
Os conflitos são muitas vezes “guerras de memória” Debates políticos, discussões familiares e indignação online são alimentados por recordações motivadas e concorrentes Dá-lhe uma nova forma de desescalar discussões, focando-se nos motivos e não apenas nos factos
Auto-verificações simples mudam a narrativa Nomear brevemente o que quer que seja verdade sobre um evento pode expor o seu próprio enviesamento em tempo real Oferece um hábito concreto para manter a sua “lente” mental um pouco mais limpa e os seus juízos um pouco mais suaves

FAQ:

  • Pergunta 1: Isto significa que não posso confiar em nenhuma das minhas memórias?
  • Resposta 1
  • As suas memórias não são inúteis. Simplesmente não são registos perfeitamente objetivos. Trate-as como rascunhos de trabalho, não como documentos legais, e confirme acontecimentos importantes com outras pessoas, apontamentos ou mensagens quando o que está em jogo é elevado.
  • Pergunta 2: Algumas pessoas são mais propensas à memória motivada do que outras?
  • Resposta 2
  • Sim. Partidários muito fortes, pessoas muito ansiosas e quem tem a identidade fortemente ligada a uma crença tendem a mostrar mais distorção. Ainda assim, ninguém está imune. Mesmo personalidades calmas e analíticas usam a motivação como um filtro subtil.
  • Pergunta 3: Posso treinar-me para ter memórias mais exatas?
  • Resposta 3
  • Não pode desligar a motivação, mas pode criar hábitos à sua volta: escrever no diário pouco depois dos acontecimentos, verificar os seus motivos e acolher pormenores que o contrariem trazidos por outras pessoas. Com o tempo, isso torna a sua memória menos rígida e mais amiga da realidade.
  • Pergunta 4: Como é que isto afeta notícias, redes sociais e política?
  • Resposta 4
  • Quando as plataformas recompensam a indignação e conteúdo guiado pela identidade, amplificam memórias motivadas. As pessoas partilham histórias que “parecem verdadeiras” para o seu lado, mesmo quando os detalhes estão errados. Reconhecer esse impulso é uma primeira defesa contra ser arrastado para câmaras de eco.
  • Pergunta 5: O que devo fazer quando a minha memória e a de outra pessoa entram em choque total?
  • Resposta 5
  • Comece por reconhecer que ambos podem estar a ver o passado através de lentes diferentes. Pergunte do que é que cada um precisava naquele momento: segurança, respeito, vitória, pertença. Depois procure âncoras externas - mensagens, datas, relatos de terceiros - sem transformar isto num drama de tribunal.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário